A Escola que Escutava o Vento: Experiências Sonoras com o Palhaço Harmonia.

A Escola que Escutava o Vento: Experiências Sonoras com o Palhaço Harmonia.

Roberta Jorge Luz

Antes de aprender a tocar um instrumento ou cantar uma canção, é preciso desenvolver algo fundamental: a escuta. Foi a partir dessa premissa que o professor de Arte,  Fernando José da Silva, da Escola Estadual Aggêo Pereira do Amaral- Sorocaba-SP, desenvolveu uma experiência pedagógica criativa e sensível que transformou os sons do cotidiano escolar em matéria-prima para a aprendizagem artística.

Arte-educador formado em Teatro Arte-Educação pela Universidade de Sorocaba (Uniso), Fernando atua há 19 anos na rede estadual paulista e há seis anos integra a equipe da EE Aggêo Pereira do Amaral. Reconhecido pelos estudantes também por seu personagem “Paçoquinha”, o professor busca aproximar os conteúdos artísticos do universo lúdico e da experiência sensorial dos alunos.

O trabalho foi desenvolvido com turmas de 6º ano do Ensino Fundamental – Anos Finais (EFAF) durante as aulas de Música. Inicialmente, os estudantes exploraram conceitos como sons graves e agudos, paisagem sonora e a diferença entre ouvir e escutar. Em uma das atividades, a turma percorreu diferentes espaços da escola registrando os sons percebidos em cada ambiente. Depois, os estudantes foram convidados a representar graficamente essas sonoridades por meio do desenho, transformando ruídos, vozes, silêncios e movimentos em imagens.

A proposta ganhou novas camadas quando os estudantes conheceram a obra do artista russo Wassily Kandinsky, que associava sons, cores e formas em suas criações. Inspirados por essa relação entre música e imagem, os alunos participaram de uma experiência no pátio da escola, ouvindo uma peça de música clássica e traduzindo suas percepções em cores, linhas e composições visuais.

Foi nesse contexto que nasceu o personagem Palhaço Harmonia, criado pelo próprio professor como estratégia de mediação artística. Com uma linguagem inventada — a “blablação” —, o personagem interagia com os estudantes por meio de gestos, expressões corporais, sons e músicas de ciranda. Em determinados momentos, permanecia imóvel como uma estátua, representando o silêncio; em outros, estabelecia contato com os alunos ao acionar um círculo vermelho presente em seu cartaz. A experiência provocava curiosidade, participação e reflexão sobre a comunicação para além das palavras.

Posteriormente, o trabalho foi compartilhado também com os estudantes dos 7º anos (EFAF), que discutiram o processo de construção do personagem e aprofundaram os conceitos de paisagem sonora, percepção auditiva e escuta consciente.

Segundo Fernando, o principal objetivo da proposta foi desenvolver nos estudantes uma percepção mais atenta dos sons que os cercam, ajudando-os a compreender que ouvir é um ato fisiológico, enquanto escutar envolve intenção, atenção e interpretação. Mais do que um conteúdo musical, a atividade tornou-se uma oportunidade de sensibilização artística e de ampliação do olhar sobre o cotidiano.

A experiência demonstra como a arte na escola pode mobilizar imaginação, ludicidade e reflexão crítica, transformando conceitos abstratos em vivências significativas. Ao convidar os estudantes a escutarem o ambiente escolar de maneira diferente, o professor Fernando abriu caminhos para que descobrissem que a arte também está presente nos sons mais simples do dia a dia.

Em tempos marcados pelo excesso de informações e estímulos digitais, iniciativas como essa nos lembram que o ensino de Arte na escola continua sendo um espaço privilegiado para cultivar a sensibilidade, a criatividade e a capacidade de escutar o mundo com mais atenção.

Imagens 1 e 2: Registrando sons do cotidiano (fotografia de Fernando José da Silva)

Imagem 3: Cartazes para mediação da proposta (fotografia de Fernando José da Silva)

Imagens 4 e 5 : O palhaço Harmonia atuando durante a aula (Fotografia de Fernando José da Silva)

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