Se perceber no fazer artístico: se reconhecendo a partir da obra dos
artistas Maxwell Alexandre e Angélica Dass
Jean Torres
Prefeitura Municipal de Boituva/SP
GIAPE – Grupo de Pesquisa sobre a Infância, Arte e Práticas Educativas
UFSCar Campus Sorocaba
O relato de experiência a ser apresentado parte de vivências estéticas realizadas no ano letivo
de 2023 e 2025, com estudantes do quinto ano da rede municipal de Boituva, interior de São Paulo.
As ações, práticas e vivências se decorreram de forma espontânea e interdisciplinar, visando a
abordagem da educação para as relações étnico-raciais em duas unidades escolares diferentes e
em espaços e contextos distintos, mas que aqui dialogam na perspectiva da arte educação e de
caminhos docentes que se traçam em diferentes territórios, atravessamentos estéticos que
desaguam num fazer comum, numa normalidade que nutre, a partir do pensamento da professora
Mirian Celeste Martins.
As propostas foram realizadas com turmas de crianças de 10 a 11 anos, em dois bairros-
territórios que contam com uma população miscigenada, paradoxos e fazeres ligados a questões de
urbanização, convívio e atravessamentos socioculturais que concretizam uma diversidade racial,
cultural e fazedora de artes do corpo, visuais, sonoras, nem sempre reconhecidas mas que revelam
uma identidade, eis o objetivo de práticas que têm como ponte o período de dois anos: reconhecer
quem faz e o que é feito, num movimento de valorização e reconhecimento da alteridade no
ambiente escolar.
Nesse sentido, Angélica Dass traz em sua obra Humanae, a diversidade humana e suas cores,
fazendo relação com a Pantone, empresa de pesquisa de tendência de cores que gera códigos, a
artista ressignifica os códigos no sentido de dizer que somos muitos, diversos e coloridos,
derrubando assim tentativas de determinações de cor de pele, ainda muito presente nas salas de
aula.

Imagem 1: Fragmento da obra em curso “Humanae” de Angélica Dass
Fonte: Plataforma digital da artista
Essa diversidade também apareceu na turma, os estudantes foram fotografados e utilizando a
ferramenta de conta gotas de uma plataforma de edição de imagem puderam descobrir seus
próprios códigos, o que evidenciou que cada um daquele coletivo era único, desencadeando assim
um ver beleza e um se reconhecer pela arte, depois de exposto no corredor da escola, o trabalho
gerou curiosidade e um protagonismo orgânico de estudantes representados e daqueles que ao
apreciar buscaram entender qual seu código e se entenderam diversos, num processo de
reconhecimento da alteridade.

Imagem 2: Cartaz com fotografias dos estudantes
Fonte: Acervo do autor
Dois anos depois, num bairro vizinho, outra turma é convidada para debater sobre sua
diversidade, seus valores e seus fazeres, é aí que entra Maxweel Alexandre com sua série “Pardo é
papel”, pinturas realizadas em papel kraft que revelam um fazer cotidiano, uma beleza ordinária que
reflete a vida dos estudantes daquela unidade: comprar bala na vendinha, fazer um risquinho no
cabelo, descolorir o cabelo no final de ano, uma beleza revelada pela arte mas que nem sempre é
reconhecida no viver de muitas infâncias. Maxwell traz ao centro da roda meninos e meninas de
infâncias invisíveis, privados de sonhar e limitados por um pensamento colonial fortalecido por um
racismo estrutural.

Imagem 3: Obra que integra a série “Pardo é papel” de Maxwell Alexandre
Fonte: Portfólio digital do artista
Ao se perceberem nas obras do artista, os estudantes puderam representar suas próprias
formas de se ver, seus cabelos, suas cores, suas múltiplas belezas, nesse sentido, as crianças foram
convidadas a se representarem ou representarem outras pessoas que conheciam ou até mesmo
criar outros rostos em peças de madeira, o contexto do uso de material também revelou o
ressignificar de um objeto no território, foram peças de madeira de refugo de uma pequena
marcenaria do bairro, um material pouco valorizado pelas crianças mas que foi o suporte para o
protagonismo de suas produções na sala de aula.
Imagem 4: Produções dos estudantes: caneta acrílica em madeira
Fonte: Acervo do autor
Enquanto pedagogo, professor regente no ensino fundamental e entusiasta e apoiador da arte-
educação, tenho um objetivo simples com este ensaio: revelar um fazer extraordinário de uma rotina
ordinária na escola, de certa forma, revelar para educadores que é possível representar e dar
protagonismo às infâncias, especialmente na perspectiva das relações étnico-raciais, de forma
simples, com recursos que temos nas unidades ou até mesmo na oralidade, um fazer ancestral que
nos revela a memória, o pertencimento, e sobretudo, a voz de quem nem sempre fala, arte é
caminho aberto, é voz, é se ver sem dizer.
Referências:
ALEXANDRE, Maxwell. Pardo é Papel. 2017–presente. Série de pinturas e instalações em papel
pardo e lona.
DASS, Angélica. Humanae. 2017. Disponível em: https://angelicadass.com/pt/foto/humanae/. Acesso
em: 20 set. 2026
RUFINO, Luiz. Vence-demanda: educação e descolonização. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2021.
